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1. Contextualizando a dor: Flagelo e Violência Partindo de um referencial psicanalítico, sabemos o quanto a escrita, tanto dos alunos como dos professores, é importante para que possamos entender melhor as questões emergentes na sala de aula, que brotam como num palco, refletindo cenas tanto de violência como de amor. A psicanálise aponta-nos que, a partir de Freud, se começou a abrir o leque das questões culturais através de uma teoria que aborda a questão da constituição do sujeito na relação com o outro, podendo-se nomear várias questões que dizem respeito aos fenômenos sociais e escolares que ocorrem no cotidiano. Quando olhamos para nossas instituições, dirigimos-lhes olhares diversos, perpassados por nossas expectativas, nossas frustrações, nossos investimentos. Notamos, durante palestras ou outras situações de reflexão, que o olhar dos professores está voltado para questões abrangentes, que aqui serão definidas, em função da amplitude da temática. Freire Costa (1984) comenta o contexto da violência, enfatizando: Só existe violência no contexto da interação humana, onde a agressividade é instrumento de um desejo de destruição. Quando a ação agressiva é pura expressão do instituto ou não exprime um desejo de destruição, não é traduzido nem pelo sujeito, nem pelo agente, nem pelo observador como uma ação violenta. (1984, p. 30). A partir disso, podemos aprender mais de perto como os professores vêem a violência na escola. Aparecem-nos questões relacionadas às famílias de alunos, como se houvesse um reflexo imediato de seu universo familiar no ambiente escolar: relatos envolventes de alunos que agridem na escola e são agredidos em casa; pais alcoólatras que batem nas esposas e nos filhos; pais desempregados sem expectativas para o futuro. Professores que trabalham muito próximo a seus alunos comprovam isso, como no depoimento que transcrevemos: A violência na escola está, muito explicitamente, presente em seu dia-a-dia. Tanto crianças de Séries Iniciais como adolescentes de Ensino Médio sentem e são vítimas de uma enorme agressividade entre eles, na rua e na própria família. Trabalho como alfabetizadora e vivencio a violência, principalmente, nas casas de minhas crianças. Ouço quase todas as semanas relatos de espancamento, brigas, assaltos e até de morte (RELATO 35). Notamos que esses conflitos que o sujeito está enfrentando estão diariamente se tornando corriqueiros, como se houvesse uma banalização dos impasses diários do sujeito. Essa banalização nos faz indagar: Como estamos administrando nosso sofrimento psíquico diante disso, já que parece acharmos tudo tão “normal” e diário?. Em nossa vida corrente, empregamos a palavra violência ligada à idéia de coerção pela força de alguém que nos põe em posição de inferioridade, ou de constrangimento, havendo uma desigualdade de poder. Uma outra idéia que complementa a primeira, diz respeito à referencia à lei ou à justiça. Nesse caso, mesmo que o sujeito saiba que a lei existe, ele burla o contrato, ou uma de suas cláusulas, usando da força que possui. Nossa sociedade vai, dessa forma, lidando com a violência e vivendo em conflito com suas próprias impotências diante dos fatos, como transparece neste outro relato: A violência está muito presente; os alunos, cada vez mais, estão sendo agressivos em palavras e atos. Com os professores não há respeito, agridem verbalmente, ameaçando de pedirem aos amigos, às gangs, de descobrir o endereço do professor para vingar-se (RELATO 27). Diante do material colhido, aparecem dados importantes como a questão de a violência não estar ligada à classe social. Esse pensamento muito nos tocava, quando falávamos das classes menos favorecidas algumas décadas atrás. Hoje, sabemos que isso não serve de indicativo, deparamo-nos com casos bem sérios de violência também em meios sociais elevados, conforme aparece nas palavras de uma professora: A violência aparece tanto nas escolas particulares, como no caso do estudante universitário de São Paulo que foi morto na piscina, onde ninguém sabe e ninguém viu nada, ou seja, foi feito um pacto de silêncio, como nas escolas de bairros mais pobres, onde os alunos são mortos entre gente ou mesmo dentro dos colégios (RELATO 47). A violência tem sido também muito veiculada nos meios de comunicação, e a maioria dos professores questiona-se sobre o papel que a mídia vem exercendo na proliferação dos atos que passamos a abordar. 2. A Angústia de existir: Dentro e fora das portas da escola Dirigindo-se a outras faces da violência, Freire Costa explicita: A violência é, portanto, um fato da cultura e só existe em relação a uma lei. Psicanaliticamente falando, esta lei ou contrato diz respeito ao direito que todo sujeito tem de ocupar um lugar irreversível na cadeia das gerações e uma posição em face da diferença dos sexos. Conforme o sistema de regras que ordena seu meio sócio-cultural. O que equivale a dizer que a todo sujeito é assegurado o direito a uma identidade (...). Esta identidade é o que garante a transmissão deste direito às gerações futuras e a obediência às suas leis no tempo presente, condições necessárias à sobrevivência do sujeito e do grupo social (1984, p. 98). Perguntamos: Que leis imperam no cotidiano escolar? Elas existem concretamente? Ou são apenas regras e normas morais subjacentes? A lei prediz que devemos fazer, colocando a possibilidade de fazermos outra coisa, enquanto a regra nos joga a fazermos como todos, ou então não fazermos nada. Lanjonquiére traz claramente esta questão: “Enquanto o estábulo da lei é simbólico, o da regra é imaginário” (1996, p. 30-31). Então, hoje em dia, estamos prontos para trabalhar com um tipo de criança idealizada e, quando surge o imprevisto, uma criança-não-ideal, consideramos isso um desvio em relação à norma. Uma professora relata “que os indivíduos estão inseguros e que usam muitas vezes a violência como proteção” (RELATO 4), mostrando que, através dela, eles conseguem ter um lugar, mesmo que não seja o da criança ideal. Entra, aqui, também o depoimento contra a agressividade do professor: “Quando o aluno traz uma queixa em relação ao professor, infelizmente ele tem razão porque os professores estão também agredindo os alunos, e isso não é assunto novo. Ah, tem o Conselho Tutelar e não se pode encostar a mão no aluno, mas estão agredindo de outras formas” (ENTREVISTADA L). Precisamos começar a abrir espaços de discussão entre professores, direção, coordenações. É preciso repensar como estamos lidando com esses conflitos, já que “a violência na escola é uma réplica do modelo de violência estrutural, que é reproduzida e estimulada pelas práticas pedagógicas e didáticas – pois interessa a um sistema doentio, violento, suicida, perpetuar-se, o que não significa que novos caminhos não devam ser buscados e já” (RELATO5). Ao falarmos desses enfrentamentos, encontramos professores desanimados, que não encontram na escola um lugar para trabalhar suas questões, de dividir as angústias, enquanto espaço garantido de formação contínua para os docentes. Segundo uma professora, “se deixar só pro professor ir em busca destes espaços, ele não vai, ele não está indo sozinho” (ENTREVISTADA L). Mostrando-se dessa forma, ele está investido de acomodação, o que resultará em mudanças. Alguns professores colocam que os problemas de disciplina e agressividade no ambiente escolar seriam resolvidos com um bom planejamento do professor, mas também se questionam, pois “não adianta ter um ótimo planejamento, se não souber escutar, tem que saber ler o que está atrás disso, só que às vezes a gente está tão envolvida com as coisas da escola, que não se dá conta” (ENTREVISTADA L). Comentam que trabalhar com alguns grupos, ou individualmente, tentando ver, de fato, o que está acontecendo, tem surtido efeito, mas, mesmo assim, “a gente escuta, senta, conversa, mas eles continuam fazendo, parece que é uma coisa maior do que a vontade que eles têm de mudar” (ENTREVISTADA L). Existem professores que conseguem abrir espaços de fala com os alunos, mesmo se queixando da falta de espaço para eles próprios. Existe uma grande preocupação com a importância da escola na formação do aluno, pois “é uma função da escola, função do professor, tentar, de alguma maneira, prepará-los para a vida lá fora, que realmente está medonha” (ENTREVISTADA E). Notam-se, nessas palavras, os conflitos por que as professoras estão passando e a preocupação de preparar, de alguma maneira, os alunos, nem que seja antecipando preocupações do mundo adulto, para que a criança comece a se defrontar com a realidade, com os “desprazeres” dos adultos, visando a que ela possa melhor trabalhar suas questões, usufruindo, talvez, de uma vida mais bela, o que na psicanálise seria visto como o gozo sem falhas. Nessa perspectiva, Lajonquiére pondera: O que se almeja na atualidade não é mais que uma criança aprenda aquilo que ela não sabe e o adulto sim (cavalgar, dançar, fazer pão ou decorar o Organon de Aristóteles), porém fazer dela ao menos um adulto que, no futuro, não padeça das nossas impotências atuais. Em outras palavras, se antes se pedia, com ou sem chicotes, à criança que fosse um adulto mais ou menos educado, com o tempo passou-se a almejar cada vez mais que possuísse no futuro toda a potência imaginária que o adulto pensa que lhe falta e que, portanto, não o deixa ser feliz (1996, p.32). Teríamos, ainda, de analisar questões ligadas ao “como lidar com isso”, que dizem respeito às solicitações de encaminhamento aos profissionais da área “psi”. Essa saída foi apontada por vários professores como talvez a única via de se conseguir algo do sujeito que é indisciplinado, que depreda, que violenta. Muitos colocaram que talvez toda família deveria ser encaminhada. Tal postura remete-nos ao fato de que continuamos à procura do aluno real, da “criança ideal”, de que Lajonquiére (1996) também fala. Aquela que não é ideal, que foge desse lugar, certamente nos incomoda, pois ela desestrutura a nossa imagem de professor “equilibrado” com as nossas feridas, desestabilizando-nos, angustiando-nos. Lajonquiére (1996, p.31) afirma que ampliamos o traço distintivo da educação deste século, que é a psicologização do cotidiano escolar. Mais uma vez, outorgamos a outro as situações do dia-a-dia em busca de causas, tendo pouco retorno da questão. Encaminhamos o “aluno problemático” para a orientação educacional, que o encaminha para o atendimento com o psicólogo e assim vai estendendo-se o número de profissionais que atendem o aluno, mostrando claramente o declínio de autoridade em que estamos submersos. Alguns professores observaram que todo trabalho é fruto de uma conquista e que devemos conquistar os pais, pois “dos 31 alunos que tenho, talvez tenha dois ou três pais que têm algum respeito por sermos professoras, então tu tens que conquistar os pais, te dar respeito por aquilo que tu faz, tu vai conquistar ele pelo trabalho, pela oportunidade que tu vai dando deles conhecerem o teu trabalho” (ENTREVISTADA A). Nosso movimento em busca de uma conquista, nesse momento, vem como um pedido de ajuda para que exista um reconhecimento, para que se constitua um lugar, uma posição do “tão esquecido professor”, apontando que muito pouco temos de representatividade junto à comunidade de pais. Diante disso, outra pergunta se nos impõe: Se os pais não reconhecem o lugar do professor e por vezes nem o seu lugar de pai e mãe, como os alunos poderão lidar com o reconhecimento em relação ao professor? 3. O Espaço do professor e do aluno na modernidade: Um entre-lugar Freud, no texto Algumas reflexões sobre a psicologia escolar, retoma o lugar do professor quando diz: “Estávamos, desde o princípio, igualmente inclinados a amá-los e a odiá-los, a criticá-los e a respeitá-los. A psicanálise deu o nome de ‘ambivalência’ a essa facilidade para atitudes contraditórias” (1914, v. XIII, p.186). Mais adiante, reforça a valoração da ambivalência: Transferimos para eles o respeito e as expectativas ligadas ao pai onisciente de nossa infância e depois começamos a tratá-los como tratávamos nossos pais em casa. Confrontamo-los com a ambivalência que tínhamos adquirido em nossas próprias famílias e, ajudadas por ela, lutamos como tínhamos o hábito de lutar com nossos pais em carne e osso (Op. Cit., p.288). Se, na nossa sociedade atual, o pai está sofrendo, dilacerando-se, havendo o “declínio da mago paterna”, isso implica o declínio da autoridade como instância que opera a regra e a lei (FLEIG, 1999, p.772), e o professor também vem passando por questões bem semelhantes, pois há um total desrespeito à sua figura tanto da parte dos pais, quanto dos alunos. Esse pai que Freud situava em seu texto como pai a quem mais tarde iríamos transferir respeito, já está colocado em dúvida antes mesmo de os filhos chegarem à idade escolar. Será esse um dos motivos da falta de respeito com que nos deparamos diante do universo escolar? Nós, como professores, não conseguimos, então, nos ressituar, pois o pai também não se situa como pai? A partir disso é que podemos arriscar-nos a dizer que nós, professores, estamos vivendo um declínio social da função do professor que se assemelha ao declínio da função paterna. Remetendo-nos à formação dos professores, imaginamos a questão através da metáfora da “fo(^)rma”: molde, vasilha em que se assam bolos, todos em “fo(^)rmas” iguais. Podemos pensar também em produção industrial, como alguns profissionais ainda desejam, no sentido de que todos sejam iguais, apáticos talvez. Traçando um contraponto, pensamos então em “forma” como feitio, maneira, jeito, aparência que nos pode levar a pensar na “formação” como ato de formar, como forma de lidar no processo de aprendizagem, no envolvimento que temos junto à construção do sujeito, à formação da cidadania. Entendemos que a formação do educador não se dará em um único indivíduo, solitariamente, como uma “autoformação”, mas é o grupo de educadores que, continuamente, deve se questionar sobre as demandas e seus investimentos, sua posição de mestre, como diria um lacaniano. Essa posição de mestre está investida de uma relevância muito maior do que aquilo que o campo do pedagógico poderia nos informar. Sabemos que as marcas do encontro professor-aluno são decisivas para o percurso da vida futura da criança e do jovem, pois aí repousa o desejo. Devemos, ainda, na posição de educadores, dar-nos conta de que, diante da formação do outro, corremos o risco de inventar uma nova forma de violência: a “violência acadêmica”, que, é claro, se mostra distante da “violência de vida”, que conhecemos no nosso dia-a-dia. (FREIRE COSTA, 1984, p.61). Sentimos que a formação, nos bancos escolares universitários, deixa a desejar, pois as expectativas e as necessidades desse ensinante (que neste lugar é aprendente) não são atendidas, entendidas. Estamos deparando-nos com professores que, quando chegam à prática, percebem que a teoria que receberam não dá conta do fazer pedagógico: Eu não sei se os professores estão saindo bem preparados para enfrentar uma realidade na escola. Eu diria que a coisa está muito teórica. Na universidade você recebe os conteúdos para atender um público que está apto para aprender, o aluno que está disposto, e a realidade não é assim (ENTREVISTADO O). Dessa maneira, podemos pensar na questão dos “saberes das disciplinas” descritos por Tardif: “Esses saberes integram-se igualmente à pratica docente através da formação (inicial e contínua) dos professores nas diversas disciplinas oferecidas pela universidade” (1991, p. 220). A respeito dos saberes curriculares, Tardif diz: Apresentam-se concretamente sob forma de programas escolares(objetivos, conteúdos, métodos) que o (a)s professore(a)s devem aprender e aplicar. E por último os saberes da experiência” que são: “saberes específicos, fundados em seu trabalho cotidiano e no conhecimento de seu meio (Op. cit., p.220). Tratando-se da violência na escola, é importante pensarmos nos saberes de experiência, pois esses seriam, sem dúvida, uma das condições da profissão. O mesmo autor assim complementa a reflexão sobre o “saber”: A atividade docente não se exerce sobre objeto, sobre um fenômeno a ser conhecido, ou uma obra a ser produzida. Ela se desdobra concretamente numa rede de interações com outras pessoas, num contexto onde o elemento humano é determinante e dominante, e onde intervêm símbolos, valores, sentimentos, atitudes (...). Elas exigem, portanto, do(a)s professore(a)s não um saber sobre um objeto de conhecimento, nem um saber sobre uma prática, (...) mas uma capacidade de se comportar enquanto sujeito, ator e de ser uma pessoa em interação com outras pessoas (Op. cit., p.228). Tardif considera que há uma distância crítica entre os saberes da experiência e os saberes adquiridos na formação, como se revelasse um choque da dura realidade enfrentada na sala de aula. Nesse momento, aflora uma rejeição da formação adquirida, restando-lhe a certeza de que ele próprio, o professor, é o responsável pelo seu sucesso ou pelo seu fracasso. É tempo de acordar e ver que trabalhar segundo a LDB, dentre outras diretrizes, normas e valores, exige muito mais do que um curso de graduação e de especialista. Exige uma postura política, social frente ao novo aluno, aos jovens e às jovens do século XXI, frente à temática emergente, que é a violência na escola, frente aos “problemas” que esses alunos trazem. Os “problemas” que o professor há de enfrentar, movendo-se nessa caminhada, precisam constantemente ser repensados, reconceitualizados, havendo um “suportamento”[1][2] na busca de novas formas, reinventando corajosamente o cotidiano escolar É tempo de acordar e ver que trabalhar segundo a LDB, dentre outras diretrizes, normas e valores, exige muito mais do que um curso de graduação e de especialista. Exige uma postura política, social frente ao novo aluno, aos jovens e às jovens do século XXI, frente à temática emergente, que é a violência na escola, frente aos “problemas” que esses alunos trazem. Os “problemas” que o professor há de enfrentar, movendo-se nessa caminhada, precisam constantemente ser repensados, reconceitualizados, havendo um “suportamento" na busca de novas formas, reinventando corajosamente o cotidiano escolar.
Esse projeto nos proporcionou ter um conhecimento maior referente aos problemas que os educadores (pais e professores) enfrentam no seu dia- a - dia, ao trabalharem com crianças que apresentam dificuldades de aprendizagem, comportamento agressivo e de indisciplina.
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Comments (2)
Anonymous said
at 6:09 pm on Apr 19, 2007
Olá meninas, tudo bem? o trabalho está andando conforme o planejado. Espero as próximas postagens de vocês sobre o desenvolvimento do projeto. Um abraço!!!
Anonymous said
at 6:11 pm on Apr 19, 2007
olá novamente, consegui salvar a primeira versão do mapa conceitual de vocês e coloquei na página.Um abraço!!!
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